segunda-feira, 6 de abril de 2015

Uma análise sobre a postura e as atitudes de Rick Grimes


Por: Plinio Rocha (do site Walking Dead BR)

[ATENÇÃO!! ESTE CONTEÚDO CONTÉM SPOILERS DO EPISÓDIO S05E16 – “CONQUER”!]

Rick Grimes estava morto quando The Walking Dead começou. Respirava e andava, mas estava morto. Ou dava para pensar de maneira diferente de um cara que acorda de um coma em um hospital abandonado e se depara com um mundo tomado por um apocalipse zumbi? Um cara que tem, como primeira atitude, atirar em uma menina, que não era mais menina, mas tinha as feições de uma menina, por mais que estivesse infectada e não fosse mais humana? Um cara que acreditava ter perdido aquilo que mais amava, sua família?

Mas Rick renasceu. Sobreviveu. Fortaleceu-se para se transformar em um porto seguro para homens, mulheres, crianças. Ficou cascudo. O assistente de xerife foi obrigado a aceitar uma promoção forçada e teve a patente elevada a Salvador do Mundo. Dele, não se espera nada diferente do que respostas precisas para as mais complicadas perguntas, um tiro certeiro na cabeça de um walker, a certeza de que nada ou ninguém invadiu barreiras, sejam elas de onde for, do abrigo responsável por receber as pessoas que ele ama.

Não é de se estranhar que Rick tenha mudado tanto em cinco temporadas. Quem não mudaria? O sujeito sempre teve alguém do lado em que pudesse confiar. Com quem pudesse dividir, por pouco que fosse, a responsabilidade que passou a carregar quando foi nominalmente eleito, não por vontade ou vocação próprias, o líder.

O posto de “braço direito”, aquele que, talvez, liderasse mais do que Rick e os demais soubessem, foi de Lori, Shane, Hershel. Todos se foram. Sobraram gente como Carol, Daryl, Michonne, até mesmo Carl. Todos, num determinado momento, se transformaram em ponto de apoio. Mas Rick, no fundo, nunca esteve preparado para ouvir qualquer um deles.


Rick tem pinta de bom marido, bom pai, bom moço, aquele que se preocupa com os vivos, que não permite que o mais fraco seja lesado. Mas é, ao mesmo tempo, o cara das decisões práticas. Se há de se cortar o mal pela raiz, que assim seja. Ou dá para pensar de maneira diferente depois que ele põe uma bala na cabeça de Pete, o marido que agride a esposa indefesa, mata um dos líderes de Alexandria, sofre com a loucura de um mundo novo e que ninguém entende que toma conta de tudo? Mas um Pete que, acima de tudo, é humano, está vivo, não foi infectado, não foi mordido, está desesperado e perdido. Rick se conforta na decisão de outra pessoa, quando resolve ouvir a ordem de Deanna para executar o “assassino” que acabara de cortar a garganta do marido dela – mas nada, claro, que não tenha tido vontade de fazer antes.

Rick está em estado de transformação. Não foi mordido, mas está se transformando. “Não matamos as pessoas vivas.” O mantra já não é mais seguido à risca. Não pode mais ser seguido à risca. Governadores talvez mereçam morrer sem ir ao júri popular antes, mas, às vezes, não existe tempo para o julgamento. A decisão tem de ser tomada imediatamente, e o policial não vai pensar duas vezes antes de sujar as mãos na tentativa de proteger aqueles e aquilo que acredita serem ideais para ele. O ex-melhor amigo Shane é a prova viva (depois morta-viva) disso.

O bom moço não tem mais lugar no mundo de The Walking Dead. Não sobreviveria uma semana nele. Seguir as regras não traz mais… Que regras, afinal? “Mate os mortos, tema os vivos.” Não se sabe mais quais são as regras. É preciso ser mutante para dar o próximo passo, e Rick percebeu isso, por mais que ainda esteja ouvindo apenas os instintos selvagens que passaram a guiá-lo.

Com barba ou sem barba, Rick começa a não se reconhecer mais. Ele reconhece os rostos de Carl, Carol, Glenn, Maggie, Michonne, Judith, Sasha, Abraham… No piloto automático, sabe que tem de fazer o que for preciso para proteger as pessoas que o ajudam a sobreviver. E é só. Se o povo de Alexandria não entender qual o propósito deles, se não entender como as coisas deverão funcionar, daqui para frente, bom… Então, que se tome Alexandria.


Postura muito diferente – não é mesmo? – de quando praticamente teve de implorar para que Hershel deixasse que ele e os demais do grupo entrassem na fazenda, quando estavam sem forças e sendo acuados pelos obstáculos do “mundo afora”, fugindo de zumbis & Cia.

Mas por que ele resolveu mudar? Porque foi preciso. A loucura do dia a dia apocalíptico mostrou que nem sempre tomar a decisão correta salva vidas. Muito pelo contrário, pode acabar em perdas irreparáveis. Em uma realidade na qual o lema dos três mosqueteiros seria encarado como piada, o mais importante é pensar em si mesmo. Todo mundo vai fazer o que for necessário para sobreviver, e se Rick quer estender isso aos que estão ao seu redor, não dá mais para jogar o jogo da maneira que ele se apresenta. Cada situação pede uma medida diferente. E não há tempo suficiente para que todas as possibilidades sejam analisadas, respeitadas. A linha que divide matar de morrer é fina demais para ser percorrida.

“De qualquer maneira, eu não quero ser um governador.” A frase é de Rick para o famoso vilão, numa das principais amostras de que ele não quer (ou não estaria preparado) ser uma figura pública exemplar. Não mais, pelo menos. Já foi difícil ter de vestir novamente a farda de xerife, na confortável e familiar Alexandria. E a coisa não terminou nada bem, como se sabe.


Quem é Rick Grimes? Ele não sabe. As pessoas ao redor dele não sabem. Os produtores de The Walking Dead estão tentando descobrir. Os fãs batiam palmas para o jeitão duro e sempre correto do policial, mas gostam ainda mais dele quando percebem que as asas de anjo foram cortadas de maneira cruel.

Quem é Rick Grimes? Ninguém sabe. E é justamente por isso que todo mundo não vê a hora de o próximo capítulo chegar, e o próximo, e o próximo, e o próximo…

The Walking Dead irá retornar com a sexta temporada em outubro de 2015 na AMC e na FOX Brasil. O trailer da temporada, bem como a data oficial de lançamento, será divulgada durante a Comic Con de San Diego em julho.

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