terça-feira, 3 de março de 2015

Memórias de um fã – o que faz de Resident Evil um jogo tão bom?


Por: Italo Oliveira (site REVIL)

Em meados de 1996, Resident Evil se tornava um fenômeno de crítica e público. Unindo terror e sobrevivência, o primeiro jogo da série logo definiu um novo gênero de videogame, o Survival/Horror. As suas continuações diretas também foram muito bem recebidas, na verdade, as tramas ricas de suas continuações colocaram o pioneiro Resident Evil em um patamar inferior. Com diálogos toscos, atuações medíocres em live action e uma trama rasa sobre infecção biológica fez com que a Capcom anunciasse um renascimento do primeiro jogo para 2002, de forma que ele pudesse se enquadrar melhor dentro da proposta de suas continuações.

Engana-se quem pensa que o Remake do primeiro jogo surgiu apenas com o fim de uma melhoria gráfica, a atualização da trama foi o principal motivo da existência desse jogo, contudo, a sua exclusividade para o GameCube limitou o acesso à boa parte do público que ficou sem degustar do jogo por mais de uma década, entretanto, o jogo finalmente chegou a sua versão remasterizada para os principais consoles de mesa e aos PCs games em 2014.

O primeiro susto a gente nunca esquece


Enquanto os filmes de “terror B” e o subgênero Apocalipse Zumbi passavam por uma crise nos cinemas dos anos 1990, nos videogames a história estava indo para uma situação inversa. Os jogos de lutas e games da saga do Super Mario Bros. dominavam os consoles e Arcades, todavia, a chegada de Resident Evil desestabilizou a dinâmica dos videogames, sentir medo era boa sensação e era isso que estava faltando nos jogos. No primeiro contato com o jogo ficam claro os elementos de filmes de terror B e principalmente referências aos filmes de Apocalipse Zumbi dos anos 1960 de George Romero. Apesar da emblemática abertura, o primeiro zumbi era o principal responsável por tirar o sono dos jogadores.

Todavia, não só o terror chamava a atenção para Resident Evil, a trama, os mistérios, os puzzles, ângulos de visão estáticos e cinematográficos, trilha sonora, munições escarças e suprimentos limitados, até as detestáveis e intermináveis telas de loads eram interessantes, porém, o grande trunfo de Resident Evil estava em saber como assustar e criar aquele clima de tensão e desespero em seu jogador. Afinal, quem se lembra da primeira vez que passou pelo corredor com grandes janelas de vidros que abruptamente são quebradas fazendo a estreia dos Cerberus, o jogador desavisado, e embalado por uma trilha aterrorizante, tenta correr e é quando se depara com outra janela logo em frente se quebrando e outro Cerberus surge encurralando o personagem e é aí que magia de Resident Evil acontece.

Transcendendo as barreiras gráficas e jogabilidade, dentro das limitações da época, Resident Evil também colocava em cheque as relações de gênero. Em uma trama que aparentava ser majoritariamente masculina, logo revela Jill como uma forte protagonista feminina. O jogo oferece ao jogador duas tramas distintas, uma sob a perspectiva de Chris e outra na perspectiva de Jill. Na pele da personagem feminina, o jogador logo se depara com sua força, enquanto um homem se perde na chegada à mansão, no caso Chris, ela não só entra como é determinada por seu capitão a averiguar um tiro que vinha de uma sala próxima, Barry se voluntaria a acompanhar Jill, não por ela ser uma mulher e sim por estar preocupado com seu amigo de longa data. Na verdade, a trama da Jill seria favorecida pela ajuda de Barry em determinadas ocasiões, todavia, vale destacar que o jogador tem domínio para interferir e evitar a ajuda de Barry em praticamente todas as ocasiões, inclusive pode optar pela morte do companheiro de equipe.

Se Jill pode ser considerada com alguma vantagem em relação ao Chris, o mesmo não se pode dizer da Rebecca. Na campanha de Chris, o policial do S.T.A.R.S. é auxiliado por Rebecca e o jogador é obrigado a receber ajuda da novata em algum momento do jogo. Convenhamos também que o cavalheirismo de Chris não é algo presente no jogo e isso fica claro quando, o jogador opta pelo final “muito bom”, salvando Jill e Rebecca, e as duas mulheres seguram o Tyrant enquanto Chris vai para o heliporto sinalizar para o Brad que está sobrevoando a mansão. Dessa forma, Resident Evil abrange o público tanto masculino como também o feminino, pois os seus personagens não são determinados por questões estereotipadas de gênero, mas sim por serem de um esquadrão de elite treinado e apto para resolver a situação e o jogador tem a liberdade de escolher qual abordagem preferem.

O horror que renasce


As continuações do primeiro Resident Evil tinham um polimento muito mais sofisticado, como era de se esperar. A trama evoluiu de forma natural e acabou ficando muito complexa, o que acabou datando o primeiro jogo da série. Os novos roteiros fluíam, a jogabilidade ia ficando menos travada, novos recursos e dinâmicas iam surgindo, as aberturas passaram a ser em CGI.

O Resident Evil pioneiro acabou envelhecendo mal, na verdade, não só graficamente, como também em sua narrativa. O jogo explorava muito superficialmente a trama da infecção viral como também o papel da Corporação Umbrella no incidente na mansão. Os detalhes que tanto enriqueciam as continuações, como sub tramas e maiores informações sobre a ambientação, eram elementos que faltavam no primeiro jogo. Pensando em atualizar a trama do primeiro jogo para que ela dialogasse melhor com suas continuações, a Capcom propôs um remake do jogo. A opção de refazer um jogo é sempre polêmica, nesse caso se tornava ainda mais agravante por dois motivos, o primeiro consistia que o Resident Evil original ocupava um espaço nostálgico na memória afetiva do jogador e o segundo consistia na exclusividade do jogo que sairia apenas para o GameCube, console não muito popular entre os jogadores de Resident Evil na época.

Superado os principais temores dos fãs, o jogo foi lançado em 2002 com uma boa aceitação. Contemplando todos os artifícios do jogo original, o remake ainda propôs novos cenários e sub tramas. Focado no perigo biológico e nos envolvimentos da Umbrella no incidente, o renascimento de Resident Evil colocava a série em um novo patamar. O jogador ficou maravilhado com o grande polimento que o jogo havia recebido e surgiu instantaneamente o desejo que o mesmo acontecesse com os Resident Evil 2 e 3, entretanto, o motivo pelo qual o remake do primeiro fora realizado não se aplicava aos demais jogos.

Parecido, só que diferente


A melhoria gráfica é o primeiro ponto a ser observado no Resident Evil Remake. A abertura, agora em CGI, não continham mais as atuações que deixavam a desejar, e o jogador ao entrar na mansão, pode finalmente encarar os novos desafios. O público específico da Nintendo se deliciou com essa obra-prima, enquanto o jogo não tinha nem promessa de uma quebra de exclusividade para os outros consoles.

Para o jogador de primeira viagem, o jogo passa as mesmas sensações do jogo original. Para o jogador veterano, que acreditava conhecer bem o jogo, o remake resolveu brincar com os seus sentimentos, afinal, para onde levaria o corredor atrás do primeiro zumbi? Coisa que não continha no original e para, além disso, o jogador que se precaveu de sustos já esperados acabou se surpreendendo, é o caso da vidraça da janela quebrada pelos Cerberus (comentada anteriormente), agora, o jogador ao passar por essa cena, a janela trinca, porém nada de mais acontece, ironicamente isso tranquiliza o jogador que, ao voltar desatento pelo mesmo local é surpreendido com a janela quebrando com os Cerberus encurralando o personagem pela segunda vez.

E as surpresas não param por aí, todo o arco inédito e angustiante de Lisa Trevor deixava o jogador ainda mais envolvido e aterrorizado, sendo ele inexperiente ou veterano. A magia que envolvia o primeiro jogo está presente em seu remake.

Crise no Survival Horror?


Embora o Resident Evil Remake estivesse refazendo o passado, a série Resident Evil precisava continuar. Com o vindouro e controverso Resident Evil 4, a série foi para outro patamar. Elogiado pelo público ocasional e a crítica especializada, o jogo acabou sendo eleito o jogo do ano por diversas premiações, entretanto o título acabou desagradando boa parte da base de fãs, principalmente os que jogavam desde os primeiros capítulos e criticavam justamente ao fato do terror e sobrevivência serem deixados para segundo plano. Resident Evil 4 foi a benção e a maldição da Capcom, com os diversos elogios e uma nova geração de fãs que se rendiam ao Survival/Horror pelos motivos errados.

Embora catalogado como um jogo de terror e sobrevivência, O quarto capítulo da série ficou famoso por ser um shooter de ação. Com o lançamento de Resident Evil 5 e o seu abrupto sucesso, o jogo se tornou o título mais vendido da história da Capcom, e o Resident Evil 4 se tornando o principal jogo de multiplataforma da empresa deixou a base de fãs dividida sobre o futuro da franquia. Apesar dos fãs “hardcores” clamarem pela volta do foco no terror e sobrevivência, outra parte dos fãs acreditava que não havia mais espaço para jogos como os primeiros Resident Evil no mercado atual de videogames.

A Capcom, aparentemente, resolveu ouvir os fãs do Survival/Horror com o lançamento do Resident Evil 6. Tentando agradar os fãs de terror e da ação em um mesmo jogo. Todavia, o excesso e o exagero de Resident Evil 6, aparentemente, deu razão aos fãs mais pessimistas e reafirmou que não havia mais espaço para o Survival/Horror. Principalmente quando jogos como Resident Evil Operation Raccoon City, focado em ação, era sucesso de vendas, Resident Evil 6 não conseguia bater nem a sua meta mínima de vendagem e, infelizmente, aquilo parecia colocar um ponto final no majestoso trabalho iniciado pelo primeiro Resident Evil em 1996.

O triunfal retorno em Resident Evil HD Remaster


Em uma decisão curiosa, a Capcom rompeu com o contrato de exclusividade de Resident Evil Remake com a Nintendo e disponibilizou o jogo para os principais consoles de mesa. Um lançamento tímido que logo se tornou fenômeno: RESIDENT EVIL VOLTOU! O relançamento em HD trouxe o Survival/Horror de volta aos holofotes. A principal dúvida sobre esse relançamento consistia em como o jogador atual encararia um jogo focado em terror e sobrevivência, com munições e suprimentos escassos, onde o medo e angústia para saber o que havia por de trás daquele interminável load em forma de porta. E a aceitação foi à mesma de 1996 e 2002! Resident Evil se mostra atemporal e em meio a tantos jogos de ação e tiros ele prova mais uma vez que se sentir perdido e com medo é uma boa sensação. E o fator replay, ocasionado pelas conquistas de troféus alimenta ainda mais o jogador a jogar várias vezes para cumprir os desafios.

Contrariando Resident Evil 6, o Survival/Horror não perdeu seu espaço e sim estava sendo mal aproveitado. Esse relançamento reascendeu a esperança da série voltar às origens no próximo lançamento numerado e há quem acredite que ele seja um teste para saber se é viável o lançamento dos remakes de Resident Evil 2 e 3. O fato é, Resident Evil HD Remaster trouxe aquela sensação esquecida de como era bom jogar Resident Evil, para, além disso, o relançamento também serviu para apresentar o jogo a uma gama de jogadores veteranos que não tiveram a oportunidade de jogar essa pérola no GameCube, assim como mostrar aos novos jogadores como é bom mergulhar no universo de Resident Evil!

Via: REVIL

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