sexta-feira, 28 de novembro de 2014

The Walking Dead Análises: Em defesa de Rick Grimes


Em uma época pré-Sopranos, quando a televisão não estava inundada com anti-heróis, o protagonista de uma série costumava ser o personagem menos interessante. Esses protagonistas sem graça eram definidos como sendo apenas “O Principal”, enquanto personagens coadjuvantes ganhavam características e atributos mais memoráveis. Isso é conhecido como “síndrome do protagonista baunilha”.

Alguns críticos da série de horror da AMC, The Walking Dead, argumentariam que essa regra poderia facilmente ser chamada de “síndrome de Rick Grimes”. Mas Rick não é o personagem menos interessante de The Walking Dead – nem é, como muitos fãs afirmam, de forma alguma descartável. Mate Rick e você estará matando o coração e a alma da série.

Em sua quinta temporada, The Walking Dead tem evitado uma linha narrativa linear em função de uma abordagem mais aleatória – desenrolando uma série de narrativas desconectadas antes de revelar como e quanto elas se cruzam.

Isso significou três episódios inteiros sem Rick, e ainda que os episódios em que ele estava ausente não tenham sido de forma alguma ruins, sempre parece que está faltando alguma coisa quando ele não está lá, porque muito de The Walking Dead é sobre a jornada de Rick.

Existem tramas secundárias e desvios, à medida que a série busca fazer justiça a todo o conjunto do elenco, mas se um tivesse que ser escolhido como a “Pessoa Mais Valiosa”, seria difícil descartar a contribuição de Rick.


Do lento colapso de Shane até a vida e morte do Governador, até o recente surgimento de Gareth – muito do que acontece na tela é definido por como isso afeta Rick. É sobre o efeito que tudo que vivenciamos tem sobre a alma deste único homem.

Talvez a única transformação mais evidente nos quatro anos de The Walking Dead tenha sido a de Carol, mas enquanto o personagem de Melissa McBride notoriamente mudou de dona de casa mansa e vitimada para guerreira formidável, a evolução de Rick foi mais sutil e mais complexa.

Como antigo xerife, ele sempre foi um homem de ação – quando o vemos pela primeira vez, ele está trocando tiros com criminosos – mas Rick costumava recorrer à violência apenas como último recurso. Aqui tínhamos um homem desesperado para se agarrar a algum resquício de normalidade – primeiro na fazenda de Hershel e depois na prisão, nós o vemos trabalhando para estabelecer uma nova sociedade.

Mas gradualmente, à medida que tudo que ele construiu foi destruído de novo e de novo por intrusos sedentos por poder, algo mudou dentro de Rick. Quando ele mata Dave e Tony em 2012, no episódio “Nebraska”, parece que um interruptor é acionado, colocando ele em um caminho de incerteza moral que continuou naquela temporada com a execução de Shane.


Em episódios mais recentes, a violência não é o recurso final de Rick, e sim seu primeiro porto de escala. Agora, a linha que separa nosso “herói” sedento por sangue de vilões como Gareth é tão fina que se torna quase inexistente.

Deixado a sua própria sorte, Rick pode ser um monstro – apenas sua família e amigos conseguem mantê-lo são. É fascinante para um espectador de longa data de The Walking Dead ver que agora o jagunço reformado Daryl é a pessoa que acalma o ex-policial em muitas situações.

No papel, é difícil imaginar como alguém poderia rotular Rick Grimes de “chato” – e ao transferir o personagem das páginas dos quadrinhos para a tela, The Walking Dead teve a sorte de conseguir um ator talentoso como Andrew Lincoln.

Por mais que você não tenha ideia, pela maneira como as entidades de premiações o esnobaram, Lincoln é absolutamente espetacular. Seu trabalho como Rick é uma das melhores performances de atuação na TV atualmente, garantindo que você sinta cada crise moral, cada decisão comprometedora.

É uma cena divisora, mas para mim, seu melhor momento foi no episódio “Killer Within” de 2012, quando vemos sua reação à morte de Lori. Rick geme, lamenta, e finalmente suas pernas cedem sob ele e ele é dominado pela dor – é um trabalho cru, firme e incrivelmente corajoso.


Com o considerável trabalho com seu sotaque desde 2010, a jornada de Lincoln reflete a de outra importação britânica – como Hugh Laurie, ele trocou o leve tom britânico por um sotaque ianque e uma presença de tela mal-humorada e magnifica.

Sujo, endurecido, sua aparência física refletindo externamente sua luta interna, o Lincoln que aparece agora em The Walking Dead é irreconhecível como o romântico melancólico de “Love Actually” (Simplesmente Amor) ou como o rapaz insolente que apareceu em “This Life” e “Teachers”.

A jornada de Rick, como interpretada por Lincoln, é parte considerável do que dá estrutura emocional para The Walking Dead – sem ele, seria uma ladeira escorregadia onde a violência na tela não tem impacto porque você simplesmente não se importa com os personagens presos nesse pesadelo.

Ele está longe de ser o único personagem com o qual você tem empatia, mas sendo o personagem que mudou de forma mais sutil e mais significativa desde o piloto, eu argumentaria que, de todos os personagens, a perda de Rick seria a mais intensamente sentida, nos privando de tantos desdobramentos potencialmente fascinantes por vir.

Fãs do carismático arqueiro de The Walking Dead gostam de dizer que “Se Daryl morrer, nós faremos um motim”, mas eu darei um passo além. Se Rick morrer, eu desisto.

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