terça-feira, 15 de julho de 2014

Porquê você deve assistir a série da BBC “In the Flesh”


Destaque: Ele tem que lidar com as pressões de um pai que não apenas se recusa a reconhecer que seu filho tem SFP (Síndrome do Falecimento Parcial), mas que também pode estar apaixonado por alguém do mesmo sexo.

Apesar de não ser grande novidade nos Estados Unidos, “In the Flesh”, o drama de apocalipse zumbi em três partes que foi ao ar pela primeira vez na BBC, é uma das séries mais delicadas e inteligentes que você poderia ver este ano.

Com o drama atualmente em sua segunda temporada na BBC América, é lamentável que ele ainda tenha o mesmo tipo de campanha publicitária de “Orphan Black”. “Orphan Black” é ótimo e tal, mas ver “In the Flesh” seguir o mesmo caminho é uma verdadeira vergonha.

O ator inglês Luke Newberry atua como Kieren “Ren” Walker, um adolescente frágil que cometeu suicídio após a morte de seu melhor amigo, Rick. Mas, como a série acontece em um mundo zumbificado, Ren volta a vida – ou quase. Ele volta como um portador da SFP, Síndrome do Falecimento Parcial. Ele volta branco como papel, sem pupilas e precisa injetar frequentemente um tipo de medicação para evitar que ele se torne novamente uma criatura raivosa. Fora isso, ele é bem humano.

Na primeira temporada, Ren acaba de voltar de um instituto de SFP e deve enfrentar a ira de uma comunidade de anti-SFP’s. Seus pais, felizes por tê-lo novamente, o mantém em casa, enquanto sua irmã, ainda irritada com sua morte, se une a uma milícia local dedicada a caçar os portadores da SFP. As coisas ficam ainda mais complicadas quando Rick volta também.

Trailer da 1ª temporada


O notável diferencial de “In the Flesh” é o modo como a série desafia o gênero. Ela não passa uma visão violenta ou realmente grotesca das criaturas (como em “The Walking Dead”), mas um retrato perspicaz de preconceito, culpa e adolescência. É assim que se lida com o sobrenatural.

Quando ainda estavam vivos, Ren e Rick tiveram um relacionamento romântico. A série sugere isso implicitamente, sem nunca se aprofundar demais no passado deles juntos. Tudo que sabemos é que quando o pai de Rick descobre, ele envia seu filho ao Iraque para “torná-lo homem”. A decisão dos criadores de manter os detalhes sobre o relacionamento vagos foi inteligente. Isso não apenas nos deixa curiosos, mas permite que a série seja mais do que uma “série gay”. Afinal, “In the Flesh” é sobre zumbis, não exatamente no modo tradicional, mas ainda assim é o foco central da série.

Entretanto, a volta de Rick é acompanhada por novas dúvidas. Ele tem que lidar com as pressões de um pai que não apenas se recusa a reconhecer que seu filho tem SFP, mas que também pode estar apaixonado por alguém do mesmo sexo. Para ajudar, ele ainda carrega o peso da culpa pela morte de Ren.

A SFP e a reação que ela gera na comunidade é obviamente uma referência aos preconceitos que cercam a homossexualidade. Ren e Rick foram desumanizados antes de estarem mortos, e já se encontravam em uma situação similar mas a série é cuidadosa para não tornar isso o tema principal.

“In the Flesh” lida com isso tudo de modo tão perfeito sem nunca se tornar melodramático ou previsível. Essas são questões familiares que muitos espectadores enfrentam hoje, mas a série as aborda de modo natural. Em partis isso acontece por causa das performances suaves, mas ricas, além da qualidade da escrita. Não há confrontos abruptos, declarações absurdas de amor ou coisas desse tipo. “In the Flesh” é sutil, construindo tensões em momentos tranquilos.

Por exemplo, há uma cena em um carro na primeira temporada. É a primeira conversa real entre Ren e Rick após terem voltado. É uma discussão tensa, um resumo de tudo que aconteceu entre os dois rapazes, mas não de forma explosiva. “In the Flesh” sabe como lidar com esses assuntos.

Falando nisso, há outro personagem que merece destaque, talvez um dos melhores personagens da TV nos dias de hoje. Ren faz um amigo companheiro de SFP, Amy Dyer, que, em sua forma humana, morreu de leucemia. Ela tem orgulho de sua nova identidade, contundente sobre sua incapacidade de comer (em um jantar com a família de Ren) e se recusa a usar lentes de contato e maquiagem, que supostamente deveriam ajudá-las a se adaptar. Ela é divertida, honesta, grata por estar “viva” e é o equilíbrio perfeito à passividade de Ren.

Felizmente a série fez sucesso o bastante com o público parar seguir para a segundo temporada (que traz muitos conflitos), mas com as últimas aventuras tão parecidas, é bom ver uma série diferente.

Trailer da 2ª temporada



“In the Flesh” vai ao ar aos sábados às 23:00 h na BBC America.

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